No ano em que a Segunda Guerra Mundial está completando 80 anos de seu início, a Câmara de Vereadores de Niterói realizou, pelo décimo terceiro ano consecutivo, na última segunda-feira (29/04) sua tradicional sessão solene em memória do Holocausto judeu. Autoridades eclesiásticas, civis e representantes da comunidade judaica, reuniram-se em torno da memória dos seis milhões de judeus mortos pelo Estado Nazista alemão e por um pedido de paz e tolerância ao Mundo.
O evento é uma realização do Memorial Judaico de Vassouras, da Associação David Frischman de Cultura e Recreação (ADAF) e da Organização Feminina Wizo-Centro Scylla Scheneider de Niterói. À mesa principal, presidida pelo vereador Bruno Lessa (PSDB), sentaram-se o cardeal arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta; o padre Camine Pascale, representando a Arquidiocese de Niterói; o rabino Eliezer Stauber; o sobrevivente dos campos de concentração, Freddy Glatt; o presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, Arnon Velmovitsky; e a presidente da ADAF, Rolande Fischberg. Ao final da sessão foi aberta a exposição “Os 80 anos do maior conflito do século XX e o Holocausto”.
O rabino Stauber deu seu depoimento e disse que não chegou a conhecer os irmãos e os avós.
- Isso me marcou muito. Meus pais conseguiram se salvar. Setenta e cinco anos depois ainda sinto muito tristeza. Queremos passar uma mensagem ao mundo de que os seres humanos são iguais, seja qual for a sua religião. O ser humano é a coisa mais fundamental, a mais importante – ressaltou. Ele fez uma prece em hebraico em homenagem às vítimas, que depois foi traduzida para o português.
Dom Orani fez destaque para que eventos como esse sirvam ao não esquecimento da barbárie cometida.
- Hoje em dia a intolerância está sendo estimulada ao invés de reprovada. Há sempre um horizonte de esperança para o homem, é preciso aprender com a história e com o passado – disse o arcebispo.
Sobrevivente
Em 27 de janeiro de 1945 o Exército Soviético libertou o Campo de Auchiwvitz. Freddy Glatt conseguiu escapar.
- Dois irmãos meus foram assassinados, meus avós maternos e outros familiares. Escapei por sorte, ousadia e coragem aos 14 anos. Vendia jornais pelas ruas de Bruxelas e fabricava pilhas nos porões à noite, de forma clandestina. Em 1944 fui acolhido num castelo e, em 15 de outubro de 1947, cheguei de navio ao Brasil. Formei uma família com três filhos, seis netos e dois bisnetos, todos brasileiros – contou Glatt, que hoje preside a Associação dos Sobreviventes do Holocausto.
Arnon Velmovitsky, da Federação Israelita, ao lembrar a tendência mais à direita dos governos da capital, do Estado e da União, que os judeus brasileiros não são ligados a qualquer governo e acrescentou que “a comunidade judaica vota na esquerda e também na direita”. Durante a sessão seis velas foram acessas lembrando os seis milhões de judeus. O Coral Moisés Kawa entoou o Partisans e canções de resistência dos guetos.
Presidindo a sessão desde 2013, Bruno Lessa disse estar honrado em presidir a sessão solene do holocausto.
- É na fala dos sobreviventes que encontramos motivo para justificar essa sessão. A escalada da intolerância religiosa cresce no mundo inteiro – disse Lessa.
Antes mesmo da Organização das Nações Unidas (ONU) fixar uma data em lembrança ao Holocausto, a Câmara de Vereadores, em 2006, transformou em lei uma iniciativa do então vereador José Vicente Filho, tornando obrigatória a sessão solene anual em memória às vítimas. Também participou o vereador Beto Saad (PR).
Texto Eduardo Garnier – Ascom Câmara